Monday, December 24, 2007

quem conta um conto...

a expressão contos de natal ou qualquer coisa muito natalina sempre me passa uma impressão terrível de algo aborrecido, enfadonho, apelativo, choramingante, etc. mas quando a história é boa e a habilidade do sujeito ao narrá-la pega o leitor, não há tema suficientemente aborrecido. esse conto de natal do mário de andrade é delicioso e divertido, ao menos pra mim que tive também pai desmancha-prazeres. aliás, como ele diz no conto, o puro-sangue dos desmancha-prazeres! só meu pai não era do mesmo tipo, mas enfim, não importa. desmancha-prazeres é um bicho que causa efeitos semelhantíssimos. o conto traz imagens de sentimentos e cenas familiares de eventos em família que são divertidas e escritas genialmente. vale a pena ler todo aqui. abaixo, algumas saborosas pinceladas. ah, a dica foi do sérgio rodrigues, do todoprosa.


Morreu meu pai, sentimos muito, etc.

A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.

E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando.

Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.

Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político.

Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar.

4 comments:

Tiago Branco said...

Muito bom! Gosto daquilo que lida com a morte de forma não-convencional. E eu estou com um peru no meu estômago! Pela antropofagia, poderia ser até meu pai. huaaa!

joice said...

:))))
no meu estômago, não. jamais seria meu pai. eu já teria me engasgado.. hehehe.

plima said...

Meu pai tava mais para sobremesa... Pudim de cachaça! Mas sei lá, não lembro, não conheci o velho direito. E nessa época de Natal eu bebo para esquecê-lo.

phl

joice said...

é paulo? eu, pelo mesmo motivo, lembro dele é mais quando bebo. mas é só por um instante. depois, sei lá, passa.
beijo.