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Sunday, April 27, 2008

a respirada









boa semana aí!

a tira é do blog do rafael sica

Saturday, March 08, 2008

é mais ou menos isso















A harmonia secreta da desarmonia: quero não o que está feito mas o que tortuosamente ainda se faz. Minhas equilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas e aéreas piruetas -- escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio.

E se eu digo "eu" é porque não ouso dizer "tu", ou "nós" ou "uma pessoa". Sou obrigada à humildade de me personalizar me apequenando mas sou o és-tu.

Sim, quero a palavra última que também é tão primeira que já se confunde com a parte intangível do real. Ainda tenho medo de me afastar da lógica porque caio no instintivo e no direto, e no futuro: a invenção do hoje é o meu único meio de instaurar o futuro. Desde já é futuro, e qualquer hora é hora marcada. Que mal porém tem eu me afastar da lógica? Estou lidando com a matéria-prima. Estou atrás do que fica atrás do pensamento. Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais. Estou num estado muito novo e verdadeiro, curioso de si mesmo, tão atraente e pessoal a ponto de não poder pintá-lo ou escrevê-lo.

(...)

Quero escrever-te como quem aprende. Fotografo cada instante. Aprofundo as palavras como se pintasse, mais do que um objeto, a sua sombra. Não quero perguntar por quê, pode-se perguntar sempre por quê e sempre continuar sem resposta: será que consigo me entregar ao expectante silêncio que se segue a uma pergunta sem resposta? Embora adivinhe que em algum lugar ou em algum tempo existe a grande resposta para mim.

E depois saberei como pintar e escrever, depois da estranha mas íntima resposta. Ouve-me, ouve o silêncio. O que te falo nunca é o que te falo, e sim outra coisa. Capta essa coisa que me escapa e no entanto vivo dela e estou à tona de brilhante escuridão. Um instante me leva insensivelmente a outro e o tema atemático vai se desenrolando sem plano mas geométrico como as figuras sucessivas num caleidoscópio.

Entro lentamente na minha dádiva a mim mesma, esplendor dilacerado pelo cantar último que parece ser o primeiro. Entro lentamente na escrita assim como já entrei na pintura. É um mundo emaranhado de cipós, sílabas, madressilvas, cores e palavras -- limiar de entrada de ancestral caverna que é o útero do mundo e dele vou nascer.

clarice lispector in "água viva", círculo do livro, 1973.

Tuesday, January 08, 2008

lost in translation

estou no olho do furacão. é o que respondo, se me perguntam. é a melhor expressão para definir meu momento. estou concluindo a tradução do vigésimo quarto dos trinta capítulos de um livrão. faltam agora pouco mais de 140 páginas e meu prazo é final de janeiro...(!) depois ainda preciso revisar tudo a partir do décimo primeiro capítulo. taí uma coisa que aprendi ao longo deste extenso trabalho, nunca mais deixar tanta coisa para revisar no final. por um lado, é bom, pois a partir de uma leitura posterior, já com algum distanciamento do texto, eliminam-se mais facilmente aqueles vícios das inúmeras leituras. on the other hand, é trabalhoso pra caramba! em função da necessidade de ganhar dinheiro e mostrar trabalho para a editora, é preciso seguir em frente com o texto, sem empacar muito naqueles trechos cabeludos para os quais a consulta a quatro ou cinco dicionários, mais algumas buscas no gúgo, não tenham resultado em uma solução satisfatória. daí a criatura vai deixando duas ou três soluções para um mesmo trecho, ou apenas grifos, que antes faziam todo o sentido do mundo, mas depois complica bastante na hora de retomar todo aquele contexto. por isso é tão importante, ao menos na minha experiência e para o meu jeito de trabalhar, e sobretudo no caso de um livro assim tão extenso, já na elaboração do glossário de tradução, a elaboração também de uma espécie de código de possibilidades, indicações ou qualquer coisa assim. elaborei uma codificação atrasada e bastante improvisada que até ajuda, mas precisa e pode melhorar. isso, aliás, é uma das coisas que mais me fascinam na tradução. a possibilidade de aprender e inventar sempre, sempre, o tempo todo. uma coisa ou outra. de um jeito ou de outro. 2008, até aqui, segue a vidinha. para compensar, depois, em fevereiro... tem que ter mais que carnaval. será?

boa semana aí!

Friday, December 14, 2007

el pegue

Wednesday, September 19, 2007

tamosaí




















, como eu ia dizendo, é sempre em períodos que me exigem dedicação quase exclusiva ao trabalho que misteriosamente surgem as mais deliciosas distrações. pode ser uma vontade, um apêlo, convite, carta, ou a mera proliferação súbita de boas leituras que vou acumulando, em pilhas tanto materiais quanto virtuais. não me queixo, é claro. minha vida insiste em ser doidinha e toda vez que teimo em contrariá-la, acabo me ferrando.. entonces, é isso. vou seguindo a correnteza, sem com isso deixar de lutar contra uma maré ou outra, obviamente. tenho trabalhado louca e apaixonadamente. tenho feito leituras prazerosas e edificantes, mesmo que muitas vezes seja já meio que caindo pelas tabelas. tenho curtido o início de uma luz diferente nas manhãs deste final de inverno.. são os dois períodos do ano de que mais gosto, início de outono e transformação de inverno em primavera. tenho sido péssima cidadã virtual. tenho ido aqui e ali, mas é sempre coisa rápida. tenho lembrado muito de uma música que outro dia o paulo implicante lima me mostrou e que diz que eu sou daqui, mas vim de longe.. enfim, tenho me divertido muito com o trabalho, tenho um prazer imenso na tradução. tenho feito bastante silêncio. neil young, ouço todo dia. tenho dito coisas sem sentido. tenho tido sonhos desconcertantes. tenho tido sonhos embaraçosos. tenho sentido poucas coisas. tenho sentido muito intensamente. tenho lembrado de coisas. outras, vou esquecendo. lou reed, sigo ouvindo todo dia no acordamento, o que nem sempre coincide com as manhãs. estou cansando de tanto particípio passado num só parágrafo. mas poderiam ser gerúndios, e nisto já há um esboço de sorriso. o dia já vai começar. estou aqui diante do livro imenso, uma caneca de café, meu lápis, um marlboro que acabo de acender. olho pela janela.. o menino gabriel mudou-se há poucas semanas, saudade tem sido outro tema presente. da janela vejo uma menina brincando com o cachorro. uma mulher espera o ônibus e ri da menina. a menina correu agora, pisou na poça d'água, escorregou na calçada, molhou o vestido, perdeu a sandália. esforça-se para não rir de si mesma. disfarça ao xingar o cachorro, que ri sem disfarçar. recomeçou a brincadeira. dá vontade de correr lá e brincar junto.. e foi assim que o dia começou. melhor apertar logo o botão de publicar antes que desista. antes que não faça diferença. antes que o dia acabe, antes que a vida passe. antes que o tempo não volte. inté.

Saturday, August 11, 2007

outra coisa














foi uma semana silenciosamente estranha.

e neste meio tempo rolou uma coisa tão boa na minha vida profissional. tão boa, mas tão boa que nem cabe em mim tanto contentamento. e acabo derramando um pouquinho aqui.

pê ésse: essa pessoa feliz aí da foto é a meg, mais conhecida como megonha, a bela destruidora de pantufas que adora ser fotografada.

Friday, July 27, 2007

chegadas e partidas


















ontem foi dia de aniversário importante de novo, três anos do pedro, meu sobrilhado (sobrinho+afilhado). acontece que ontem não tive ânimo nem cabeça pra escrever nada, e confesso que ainda hoje está difícil. esta semana perdi um amigo querido, alguém que deixa saudade e por mais que não se queira ser materialista, é uma ausência muito muito difícil de aceitar. primeiro ele era apenas meu dentista, depois veio uma amizade tão boa e leve.

o zilmar simplesmente revolucionou em minha vida o conceito de 'ir ao dentista'. sempre nos divertíamos tanto, ele era pessoa fantástica. sempre me sacaneando e dizendo uma bobagem ou outra. teria muitas histórias do zilmar pra contar e, é claro, agora por esses dias ando revivendo mentalmente algumas delas, sobretudo as que se referem a práticas reiteradas dele como, ao final da consulta, mesmo tendo outro paciente pra atender, ele perguntava assim.. tá com pressa? tens compromisso agora? é coisa rápida, espera na salinha pra gente papear e fumar um cigarro juntos. teve um dia, na tal salinha, em que ele contou uma piada, a carol, filha dele (outra figuraça!) contou outra. aí ele virou pra mim.. agora é tu e não vem dizer que tu não sabe nenhuma. só que a piada que eu queria contar não era das mais 'de salão'. eu falei, bom depois não diz que não avisei. até hoje lembro a cara dele, ficou vermelho e nunca mais parava de rir.. depois a carol disse que ele saiu contando pra todo mundo, contou inclusive pra minha mãe em uma das consultas dela.

outra divertida marca registrada dele, de quando estava naqueles dias de sacanear os pacientes direto. imagina, a pessoa tá ali naquela situação, confiando no conhecimento técnico e científico do cara e ele vem com essa.. já de luvas, óculos e máscara cirúrgica, com algum daqueles objetos odontológicos horripilantes em punho, ele, bem sério, se aproximava da vítima, arregalava os olhos e dizia em tom muito grave: oremos..!

teve também um dia que tive um problema lá e receitou um antiinflamatório. aí eu falei que já estava tomando um remédio deste tipo em função de algum outro problema qualquer, nem lembro agora qual. ele, com toda a calma e seriedade do mundo, disse algo assim: ah então vem cá, deixa eu te explicar como é que faz neste caso: quando fores tomar o remédio, coloca junto um bilhetinho escrito assim: é para o dente também!!

pois é. não é à toa que fica tão difícil imaginar a vida sem esse cara. o bom é pensar que onde quer que ele esteja, certamente já está divertindo gentes e, é claro, sacaneando todo mundo.

mas comecei a escrever isso na verdade pra falar de outras coisas, era pra contar alguma coisa do pedro, outra pessoinha fantástica que ao longo dos últimos três anos vem também desenhando divertidamente sua história. no entanto, acho que tudo bem misturar tudo. até porque ando mesmo sentindo tudo isso misturadamente por estes dias.


















pedro mora no mato grosso. a foto ali de cima é de agora, de alguns dias antes do aniversário, esta outra aqui é do verão passado e tirei enquanto brincávamos numa praça. para comemorar o dia do pedro, pensei em contar aqui uma das muitas histórias que ele já originou e escolhi esta por ter sido, ao menos para mim, tão significativa e que, de certa forma, fala sobre o jeitinho dele de me ver e, por isso mesmo, acabou me levando, também, a alguns questionamentos importantes.

foi um dia em que pedro e eu brincávamos no meu quarto. o pedro sempre se impressionou muito ao chegar aqui em casa, supostamente uma casa de pessoa adulta, e encontrar ambientes com coisas tão 'brincáveis'. e também, por meu jeito de lidar com ele com certa espontaneidade, sem muita afetação de tia-dinda. aí neste dia estávamos aqui sentados no chão, não lembro se desenhando e pintando ou brincando com o 'tesouro' que preparei pra ele. depois de um tempo ele vai e pergunta assim: joice, você é grande ou você é criança? e este foi sem dúvida o melhor elogio que já recebi na vida. valeu, pedro. espero não desapontá-lo (muito) nem como uma coisa nem como outra.